Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel
Antes de Brasil e Marrocos, uma aula de história
No sábado, 13 de junho, o prefeito de Nova York começou o dia falando de trânsito e terminou em São Paulo. Zohran Mamdani gravava o The Morning Pitch, boletim rápido sobre a cidade às vésperas da estreia do Brasil contra o Marrocos, pela Copa do Mundo. Trocou os desvios de tráfego por uma lembrança de quarenta anos atrás.
“Tenho pensado ultimamente em Sócrates. Não o antigo filósofo grego, mas o maestro do meiocampo brasileiro”, disse. O que veio depois não tinha nada de protocolar. Aos 34 anos, primeiro muçulmano a comandar a cidade e socialista assumido, ele escolheu um meia paulista para falar de futebol e poder. Torcedores brasileiros logo espalharam o trecho nas redes.
A Democracia Corinthiana explicada em inglês
O prefeito reconstruiu a história para ouvidos estrangeiros. No Corinthians que Sócrates capitaneou, jogadores e roupeiros decidiam no voto o horário do treino, a concentração e até as contratações. “Se você era o atacante-estrela ou trabalhava na lavanderia, tinha o mesmo voto”, explicou Mamdani.
O experimento começou em 1982, quando Waldemar Pires chegou à presidência do clube e passou a direção de futebol ao sociólogo Adilson Monteiro Alves. Sócrates, Wladimir, Casagrande, Biro-Biro e Zé Maria transformaram o vestiário em assembleia. Na camisa, “Diretas Já”. No agasalho, “Eu quero votar para presidente”. A arquibancada entendeu o recado antes do país.
Sócrates, o médico que driblava generais
Sócrates não jogava como os outros. Médico formado, dono de um calcanhar genial e de uma cabeça inquieta, capitaneou a seleção de 1982, talvez a mais bela a não levantar a taça. Ao seu lado armavam Zico, Falcão e Toninho Cerezo. Fumava, lia, discursava. Levava para o gramado o que o país sussurrava nas ruas, o cansaço de viver sob generais.
Aquele Brasil caiu diante da Itália, mas a autogestão do Parque São Jorge seguiu de pé fora das quatro linhas. A Democracia Corinthiana durou de 1982 a 1984 e perdeu fôlego quando Casagrande rumou ao São Paulo e o capitão trocou o país pela Fiorentina. Restaram dois títulos paulistas e uma ideia teimosa. O craque morreria em 2011, num 4 de dezembro em que o Corinthians se sagrava campeão brasileiro.
O que a Copa carrega além dos gols
Mamdani encerrou sem palanque. “O futebol criou movimentos, ajudou a derrubar ditadores e, por noventa minutos, não só nos permitiu esquecer os problemas como também superá-los”, afirmou. O exemplo escolhido revela o instante. Um prefeito de esquerda, adversário declarado de Donald Trump, recebe a Copa do Mundo nos Estados Unidos lembrando que o futebol já enfrentou ditaduras.
A estreia terminou em 1 a 1, e o Brasil saiu do MetLife com mais dúvidas que respostas. Outras sete partidas ainda passarão pela região, e a final, em 19 de julho, será ali mesmo. A memória que o prefeito ressuscitou, porém, resistiu ao placar. Mais de quarenta anos após o auge daquele Corinthians, Sócrates voltou a campo. Dessa vez, pela voz de um novaiorquino.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 20 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.
As informações deste texto se apoiam em reportagens da Agência Brasil, da Rolling Stone Brasil e de outros veículos brasileiros que noticiaram a fala de Zohran Mamdani, somadas a registros históricos sobre a Democracia Corinthiana e a trajetória de Sócrates.