José Manoel Ferreira Gonçalves
Corintiano, engenheiro, jornalista e advogado
O Sport Club Corinthians Paulista vive dias de profunda turbulência. A cada semana, uma nova revelação emerge dos bastidores do Parque São Jorge, expondo um padrão de gestão que mistura descontrole administrativo, suspeitas de desvios e o silêncio cúmplice de quem deveria fiscalizar. A mais recente bomba veio à tona por meio de uma investigação do Ministério Público de São Paulo, que abriu nova frente de apuração sobre a gestão do expresidente Duílio Monteiro Alves. Desta vez, o foco é a liberação de R$ 1.278.798,10 dos cofres alvinegros a pedido de ninguém menos que Denilson Grillo, ex-motorista de Duílio.
De janeiro de 2021 a dezembro de 2023, segundo despacho do promotor Cássio Conserino, o clube teria efetuado pagamentos na modalidade de adiantamento de despesas solicitados pelo então motorista da presidência, sem, ao que tudo indica, a devida documentação comprobatória. A transparência, elemento tão festejado em discursos eleitorais, parece ter ficado pelo caminho. Pior: as liberações teriam contado com a anuência expressa da Diretoria Financeira, o que eleva a gravidade do caso de mera irregularidade administrativa para algo que beira a conivência institucional.
O promotor, conhecido pelo rigor em casos de corrupção e improbidade, não parou aí. Intimou para depoimento o ex-diretor financeiro Wesley Melo e o ex-gerente financeiro Roberto Gavioli, agendado para hoje, 18 de março. Ambos terão de explicar, sob juramento, como se processaram as liberações e por que o clube desembolsou mais de um milhão de reais a mando de um funcionário que, à luz do estatuto corintiano, não detinha cargo diretivo. A lei do clube é clara: não há remuneração para dirigentes. Mas o que dizer de despesas autorizadas por um motorista? O abismo entre o que prega o estatuto e o que ocorria na prática parece intransponível.
A investigação ainda incluiu dois empresários no rol de investigados, sob a suspeita de terem apresentado notas fiscais frias ou superfaturadas para justificar as referidas despesas. Se confirmado, o esquema não será apenas um caso de mau gerenciamento: configurará crimes como estelionato, apropriação indébita e fraude documental. O Corinthians, instituição centenária e de massa, transforma-se em cenário de uma tragicomédia
administrativa em que cerveja, cigarro e remédios para disfunção erétil, itens de outra investigação já revelada, dividem espaço com notas fiscais suspeitas e adiantamentos sem comprovação.
A reação das torcidas organizadas não tardou. Gaviões da Fiel, Camisa 12, Pavilhão 9, Estopim da Fiel, Coringão Chopp e Fiel Macabra uniram-se numa convocação histórica. Amanhã, quarta-feira (19), às 14 horas, estarão na sede do Ministério Público, na Rua Riachuelo, para reforçar a atuação do órgão e exigir a intervenção judicial no clube. Na quinta, durante o duelo da Libertadores, os protestos ecoarão nas arquibancadas. E no sábado (22), a partir das 10 horas, o Parque São Jorge será palco de manifestação pedindo a saída de todos os dirigentes e grupos políticos que, no entendimento da torcida, transformaram o Corinthians em cabide de interesses particulares. Intervenção judicial já! Fora todo mundo! gritam as organizadas, ecoando um sentimento difuso entre o povão fiel.
A crise, porém, não se limita às planilhas contábeis. O clube convive com problemas no gramado da Neo Química Arena, após reforma de R$ 800 mil que deixou o pior campo desde a inauguração do estádio, segundo o técnico Fernando Diniz. A contratação de empresas de segurança também está sob investigação do MP, com suspeitas de que recursos do clube foram usados para custear a proteção particular da presidência, outra afronta ao estatuto. O saldo é desolador: onde deveria haver planejamento, há improviso, onde deveria haver transparência, há nebulosa, onde deveria haver fiscalização, há omissão.
O mais perturbador, contudo, é o silêncio do Conselho Deliberativo. Não houve, até o momento, qualquer movimentação formal dos conselheiros em torno dessas denúncias. O órgão máximo de controle da instituição parece ter abdicado de sua função, reduzindo-se a mero apêndice burocrático de quem ocupa o poder. Quando o conselho se cala, o estatuto é pisoteado e o associado é traído.
O Corinthians é do povo. Foi assim que nasceu, assim que cresceu e assim que se tornou o maior clube popular do país. Mas o que se observa nos últimos anos é a substituição gradual da paixão coletiva pelo interesse individual, da gestão republicana pelo favoritismo de gabinete. A justiça, lenta mas inexorável, avança com suas investigações. A torcida, fiel até à exaustão, começa a exigir contas. E o Corinthians, mais do que nunca, precisa reconstruir não apenas seu time, mas sua alma institucional. E isso, claro, sem que tenha de ser vendido em operações festivas mas ainda muito opacas, como o projeto Safiel.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 21 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.
Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.