Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O experimento que virou caso de ética
Fabiana Bolsonaro resolveu inovar. A deputada estadual de São Paulo gravou um vídeo onde aparece com o rosto pintado de preto. O propósito, segundo ela, seria demonstrar algo sobre privilégios raciais. A gravação viralizou. Não pelo conteúdo didático. Pelo choque da imagem. Uma parlamentar do Partido Liberal, eleita pelo voto majoritário, resolveu se vestir de negro para explicar o racismo aos negros. O resultado saiu pelo lado oposto da intenção anunciada. A Comissão de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo recebeu denúncia pedindo sua cassação. O vereador Heleno França, autor da representação, apontou lesão aos direitos humanos e racismo institucional. A questão agora não é mais o que ela quis dizer. É o que ela fez. E o que isso revela sobre a política atual.
Preto consciente ou oportunismo sem cor?
A defesa da deputada recorre à liberdade de expressão. Ela alega que o vídeo tratava de um experimento social. Que a maquiagem serviria para ilustrar discriminações. O argumento soa oco. A história do blackface carrega séculos de humilhação. Nas minstrelsy shows estadunidenses, atores brancos pintavam o rosto para ridicularizar escravizados. A prática transformou estereótipos racistas em entretenimento popular. No Brasil, a herança é diferente, mas não menos violenta. Aqui o negro foi escravizado durante mais de três séculos. A escravidão moldou as estruturas sociais. Aparecer pintada de preto numa legislatura majoritariamente branca demonstra, no mínimo, desconhecimento histórico. Ou pior. Demonstra o descaso com essa história. A acusação formal corre na Comissão de Ética desde 17 de março. A pena pode chegar a mil e duzentos dias de suspensão. Em caso de reincidência, a perda do mandato.
O conservadorismo em nova tonalidade
Fabiana Bolsonaro integra a bancada do Partido Liberal em São Paulo. O partido cultivou, nos últimos anos, uma retórica de combate ao politicamente correto. A tática rende visibilidade. Também custa caro quando ultrapassa limites legais. O código de ética da Casa proíbe manifestações preconceituosas. O preconceito não precisa ser explícito para existir. Basta ser estrutural. A deputada eleita não parece compreender essa distinção. Ela postou o vídeo nas redes sociais.
Retirou após a repercussão negativa. Mas a internet guarda registros. O que está pintado de preto na tela não some com o delete. O episódio alimenta debates sobre os limites da atuação parlamentar. Representar o povo não inclui performar racialidades alheias. O mandato exige responsabilidade institucional. Não reality show sociológico.
A resposta do Legislativo
A Comissão de Ética da Alesp possui autonomia para investigar. O relator terá sessenta dias para apresentar parecer. A deputada poderá se defender. O processo seguirá trâmite interno. O caso, porém, extrapola as paredes do parlamento paulista. Torna-se símbolo de uma era onde gestos provocadores substituem propostas legislativas. A deputada federal Erika Hilton, do PSOL, classificou o ato como injurioso. Outras lideranças negras reagiram com indignação. A controvérsia expõe a distância entre o discurso de igualdade racial e as práticas cotidianas de poder. A Assembleia Legislativa precisa demonstrar que normas existem para cumprir. Não apenas para enfeitar regimentos internos. A sociedade observa. O resultado deste processo definirá se o conservadorismo pintado de preto consciente cabe ou não na democracia institucional.
José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD).
Fontes: Conteúdo produzido a partir de reportagens do portal UOL, Informe Agora, Revista Oeste, Diário de S.Paulo e legislação interna da ALESP, verificado em 20 de março de 2026.