Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
O asfalto cortado interrompe o fluxo. Barreiras improvisadas bloqueiam trechos da Avenida dos Caiçaras sem operários à vista. O canteiro central da via transformou-se em cenário de obra abandonada. Moradores circulam entre entulhos e sinalização precária há meses. A ciclovia prometida estagna enquanto o verão consome os prazos.
A Administração Municipal iniciou a construção em julho do ano passado. Prometeu seis meses de trabalho. Investiu pouco mais de um milhão de reais no primeiro trecho. Hoje a estrutura permanece inacabada. A prefeitura alega paralisação temporária por causa da temporada estival. Alega necessidade de fluidez veicular diante da população flutuante. O argumento soa oco para quem enfrenta o caos diário. Ciclistas seguem sem espaço seguro. Motoristas perdem faixas vitais. Comerciantes assistem à queda do movimento sem perspectiva clara de retomada.
Não ao improviso
A mobilidade urbana exige método. Exige estudos de impacto viário. Exige diálogo com a comunidade antes da máquina escavar o primeiro metro cúbico. A ciclovia da Avenida dos Caiçaras evidencia a ausência desses requisitos básicos. A intervenção partiu sem transparência sobre custos totais. Sem cronograma detalhado divulgado. Sem espaço efetivo para participação popular na definição dos traçados.
Durante a campanha eleitoral de 2024 apresentei alternativa distinta. Nossa proposta situava a infraestrutura cicloviária dentro de sistema integrado de transporte. Articulávamos ciclovias com corredores de ônibus. Conectávamos bicicletários às estações de transferência. Prevíamos estudos técnicos rigorosos antes de qualquer intervenção no espaço público. Defendíamos transparência orçamentária e socialização dos projetos com moradores.
A diferença abissal entre planejamento e ausência dele aparece agora de forma concreta. A obra paralisada gera prejuízo financeiro mensurável. Desperdiça recursos públicos já empenhados. Cria desgaste social desnecessário. Pior: transforma uma política ambientalmente desejável em motivo de rejeição popular. Quando a população associa ciclovia a transtorno, perdemos a chance de expandir a saudável cultura da bicicleta.
A Prefeitura promete retomada após o Carnaval. Promete conclusão em cento e vinte dias. Promessas vazias não reconstroem credibilidade. O problema não é a pausa obrigatória. O problema é a arquitetura da decisão. A cidade precisa saber quanto custará o total da empreitada. Precisa compreender por que este trecho ganhou prioridade sobre outros. Precisa garantir que árvores removidas serão replantadas conforme o protocolo. Nada disso foi claramente explicado.
Ciclovias exigem planejamento
Guarujá possui setenta quilômetros de malha cicloviária. A maioria concentrada na orla. A conexão entre bairros internos e litoral permanece precária. A Avenida dos Caiçaras representa elo estratégico entre Jardim Las Palmas, Astúrias e Guaiúba. Sua ocupação por uma obra malconduzida afeta toda a região. O semáforo desativado no cruzamento com a Rua Nelson Horácio da Conceição exemplifica o descaso. A segurança viária ficou comprometida sem necessidade.
Iniciativas como o acesso à informação protocolado por cidadãos não configuram oposição sistemática. Representam exercício democrático legítimo. Transparência não atrasa obra. Evita desperdício. Corrige rumos. Quando a Administração esconde dados, suscita desconfiança. Quando age às escuras, repete velhos vícios da gestão urbana brasileira.
O caminho alternativo existe. Implantação de ciclovias como política de Estado. Elaboração de plano cicloviário decenal. Integração com o Plano Diretor em revisão. Audiências públicas reais antes de cada intervenção. Contratos com cláusulas severas para atrasos. Fiscalização ativa da sociedade civil. Esses elementos distinguem o planejamento do achismo.
A cidade que queremos não tolera mais obras que se eternizam. Não admite que recursos do Fundo de Desenvolvimento da Baixada Santista sejam aplicados sem critérios técnicos sólidos. Não aceita que ciclistas continuem expondo suas vidas por falta de infraestrutura adequada. Ciclovias representam direito à cidade. Representam sustentabilidade. Representam inclusão. Mas só se forem executadas com competência.
O entulho na Avenida dos Caiçaras grita advertência. Alerta contra a tentação do improviso fácil. Lembra que políticas públicas sérias demandam tempo, estudo e escuta. A população de Guarujá merece respeito. Merece respostas claras sobre quando circulará com segurança. Merece gestores que tratem a bicicleta não como moda passageira, mas como modal essencial.
As barreiras precisam cair. Os operários precisam voltar. Mas, acima de tudo, a Administração precisa reconhecer que ciclovias não são improviso. São planejamento rigoroso. São compromisso com o futuro.
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
As informações contidas neste artigo foram obtidas a partir de reportagens do jornal A Tribuna, do site oficial da Prefeitura Municipal de Guarujá e de documentos do processo eleitoral de 2024.
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