O Corinthians não está à venda
O CORINTHIANS FOI CAMPEÃO PAULISTA E DA COPA DO BRASIL NA ÚLTIMA TEMPORADA e, mesmo assim, terminou o ano com uma dívida de R$ 2,6 bilhões. Eis o paradoxo. O clube arrecada como poucos no país, mas os juros devoram boa parte da receita, e a sensação é a de quem corre numa esteira: muito esforço, nenhum avanço. Quase R$ 1 bilhão dessa dívida vence em até doze meses e sufoca o caixa. Diante do quadro, muita
gente apresenta a SAF como a única saída. Discordo.
Não porque a crise seja menor do que parece. Ela é grave. E é por isso mesmo que precisamos desconfiar das soluções fáceis para problemas difíceis. Transformar o Corinthians em empresa pode custar aquilo que o distingue de quase todos os clubes do mundo: a natureza popular, associativa e identitária. Nunca pertenceu a um empresário, a um fundo ou a uma família. Pertence à sua história e ao seu povo.
A SAF não é garantia de nada. A temporada de 2025 escreveu a prova em números. O Botafogo ganhou a Libertadores e o Brasileiro, viveu o melhor ano da sua história e ainda assim dobrou a dívida que tinha antes de virar empresa. Fechou o exercício com prejuízo perto de R$ 300 milhões. Perdeu o próprio investidor, que um tribunal arbitral afastou. O Vasco conta a outra metade da lição: vendeu o controle a um fundo americano
que prometeu US$ 700 milhões, recebeu uma fração disso, viu o sócio falir e ficou numa guerra judicial para reaver o que era seu.
O caso não é isolado. O Atlético Mineiro amargou o maior prejuízo de uma única temporada já visto no futebol brasileiro. O Bahia só exibe contas saudáveis porque o grupo que o controla despejou R$ 907 milhões em um único ano, o que é dependência, não solidez. No Cruzeiro, o dono e o principal patrocinador são a mesma pessoa.
Há o outro lado, e ele também ensina. Os dois clubes mais vitoriosos do Brasil na última década, Flamengo e Palmeiras, não são SAF. Ergueram poder esportivo sobre disciplina financeira, como associações. O capital privado persegue retorno. A torcida persegue pertencimento. As duas lógicas convivem, mas raramente apontam para o mesmo lado.
Por isso, proponho ampliar a discussão. Existem caminhos para enfrentar a crise sem dissolver a alma do clube.
O primeiro é uma reestruturação profunda da dívida. Negociar com credores, alongar prazos, derrubar juros, trocar passivo de curto prazo por financiamento longo. Nenhuma família paga uma hipoteca de trinta anos como se fosse fatura de cartão. O Corinthians tampouco pode pretender fazer isso. O clube já ensaiou esse caminho ao aderir ao regime que centraliza a cobrança dos credores. Falta transformar o ensaio em método.
O segundo é o Fundo da Fiel, aberto só ao torcedor. Em vez de vender o clube, o Corinthians emitiria títulos voltados exclusivamente ao abatimento da dívida. O torcedor não compraria participação societária. Faria um investimento remunerado e ajudaria a salvar o clube sem lhe arrancar a natureza associativa. Poucas instituições no país reúnem uma comunidade capaz de bancar um projeto desse porte. O surgimento de movimentos que querem pôr a Fiel no centro do financiamento já mostra que a ideia tem lastro.
O terceiro nasce dentro do Parque São Jorge: uma reforma radical da governança. Responsabilidade fiscal obrigatória, auditoria independente, transparência permanente, teto de gastos e regras que responsabilizem o dirigente por gestão temerária. O impeachment e a expulsão recente de um ex-presidente do quadro social mostram, sem rodeios, por que isso importa. Não basta quitar a dívida. É preciso impedir que a próxima nasça.
O quarto separa juridicamente os patrimônios do clube. Arena, centro de treinamento, imóveis e futebol podem ganhar estruturas próprias e profissionais, com o controle final sempre nas mãos da associação. Cresce a capacidade de captar recursos sem entregar o Corinthians a um proprietário.
O quinto reúne parceiros estratégicos em consórcio. Em lugar de um comprador único no comando, várias empresas tocariam projetos específicos: exploração comercial, tecnologia, mídia, licenciamento, nome da arena, infraestrutura. Repartiriam investimento e risco sem comprar a instituição.
O sexto converte a maior força do Corinthians em sua principal solução. Milhões de corintianos lotam estádios, compram camisas e cruzam o país atrás do time. Podem também sustentar um pacto nacional de reconstrução. Um programa de contribuição permanente, transparente, ligado apenas à amortização, renderia centenas de milhões por ano e provaria que a maior riqueza do clube nunca esteve no balanço, e sim na arquibancada.
O Corinthians nasceu do povo. Cresceu porque o povo o carregou. Virou gigante porque jamais foi patrimônio de poucos. Entregar a propriedade como primeira alternativa seria admitir que a história de gerações vale menos do que um cheque.
A crise pede coragem, competência e profissionalismo. Pede mudança profunda. Não pede, necessariamente, abrir mão daquilo que faz do Corinthians um clube único.
Antes de vender o Corinthians, vale a pena tentar salvá-lo como Corinthians. Clubes podem ser empresas. O Corinthians sempre foi mais do que isso: uma das maiores expressões da cultura popular brasileira.
Nos próximos artigos, outras alternativas, estudos e caminhos também serão apresentados, ampliando essa discussão para que a Nação Corinthiana tenha elementos suficientes para decidir qual futuro deseja construir.
JOSÉ MANOEL FERREIRA GONÇALVES
Engenheiro, advogado e jornalista