Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Problema histórico e atualidade da poluição crônica Guarujá
O mar cristalino de Guarujá, cartão-postal do litoral paulista, esconde uma realidade menos convidativa: a poluição crônica que atinge pontos específicos da Ilha de Santo Amaro. Embora 83% dos pontos de monitoramento tenham sido considerados próprios para banho no último verão, a situação de locais como a Praia do Perequê e a Enseada (próximo à Av. Santa Maria) acende alertas constantes. A CETESB registrou a condição de “imprópria para banho” em 51 das 52 semanas de 2024 no Perequê – um dado que resume bem o drama.
As consequências ultrapassam o campo ambiental. No início de 2025, um surto de virose gastrointestinal evidenciou os riscos sanitários. Mais de 11 mil casos foram registrados na Baixada Santista, sendo Guarujá o epicentro, com cerca de 2 mil infectados. A confirmação da presença de norovírus em exames do Instituto Adolfo Lutz comprovou a contaminação hídrica como vetor da doença. Para especialistas, a poluição crônica Guarujá não é exceção: é reflexo de um sistema de saneamento ainda insuficiente para a demanda urbana e sazonal.
Poluição crônica Guarujá: uma herança de décadas
O histórico da contaminação hídrica na região revela um problema de longa data. Em 2012, Guarujá teve seu pior desempenho no ranking de balneabilidade da CETESB: nenhum ponto alcançou conceito “bom” ou “ótimo”. A Praia do Tombo, mesmo certificada com Bandeira Azul, teve avaliação apenas “regular”.
O que tem sido feito, como a instalação de 22 km de redes coletoras nos bairros Perequê e Jardim Umuarama, ligando 1.360 imóveis antes desassistidos, é extremamente tímido ante um problema que é estrutural.
Esses pequenos avanços, ante milhões recebidos pela Sabesp nas contas de água, não erradicaram o problema. Ligações clandestinas, ocupações irregulares e falta de educação ambiental persistem. A chegada do verão intensifica a carga sobre uma infraestrutura que nem sempre acompanha o fluxo populacional sazonal.
Audiência pública mobilizou lideranças e cobrou soluções
Houve uma concorrida audiência pública na Assembleia Legislativa, bastante lotada, apesar da lamentável ausência do Prefeito do Guarujá e de seu secretariado, reiterando o desprezo pela causa demostrado ao beber água da praia em vez de visitar os milhares pontos de vazamento de esgoto. Na audiência especialistas e representantes de instituições debateram alternativas para conter a poluição crônica Guarujá. O deputado estadual Maurici lembrou o surto de virose e afirmou: “Não podemos aceitar que esse seja o novo normal”.
A pesquisadora Luciana Frazão, do Instituto Oceanográfico da USP, alertou para a presença de antibióticos nas águas e defendeu tecnologias de tratamento mais avançadas. A CETESB, por meio de Nelson Menegon, reforçou a importância do monitoramento semanal. Já Sônia Mitri Succar, da Sabesp, comprometeu-se com ações emergenciais nas áreas mais críticas, solicitando relatórios comunitários.
José Manoel Ferreira Gonçalves, representando a ONG Aguaviva, cobrou transparência e um cronograma de obras claro. A necessidade de um plano intersetorial ficou evidente: não há solução sem a integração de poder público, sociedade civil e empresas.
Lições de fora e responsabilidades locais
A experiência de outras cidades mostra que é possível virar o jogo. Niterói, no Rio de Janeiro, alcançou mais de 95% de cobertura de esgoto com investimentos privados. Sydney, na Austrália, eliminou a contaminação fecal de suas praias com emissários oceânicos profundos. Santos, vizinha a Guarujá, também é exemplo de recuperação costeira ao integrar ações regionais.
Em Guarujá, o desafio é compartilhado. À Sabesp cabe expandir e manter a infraestrutura de esgoto. À CETESB, monitorar e punir irregularidades. À Prefeitura, ordenar o território e fiscalizar construções e ligações domiciliares. E ao Estado, coordenar políticas públicas duradouras.
Um compromisso urgente e inadiável
A audiência pública mostrou que a poluição crônica Guarujá exige mais que boas intenções. Precisa de investimentos contínuos, fiscalização permanente e educação ambiental eficaz. O tempo para reverter o quadro se esgota a cada verão, enquanto os riscos à saúde e à economia local aumentam. Limpar as águas do Guarujá é mais que uma demanda ambiental: é um pacto pelo futuro da cidade.
*José Manoel é pós-doutor em Engenharia, jornalista, escritor e advogado, com uma destacada trajetória na defesa de áreas cruciais como transporte, sustentabilidade, habitação, educação, saúde, assistência social, meio ambiente e segurança pública. Ele é o fundador da FerroFrente, uma iniciativa que visa promover o transporte ferroviário de passageiros no Brasil, e da Associação Água Viva, que fortalece a participação da sociedade civil nas decisões do município de Guarujá. Membro do Conselho Deliberativo da EngD
Declaração de Fontes:
“As informações contidas neste artigo foram obtidas a partir de fontes confiáveis e verificadas: Relatórios da CETESB, dados das Secretarias Estaduais de Saúde, Ranking do Instituto Trata Brasil, documentos oficiais da Sabesp, registros da audiência pública na ALESP, e casos de sucesso em saneamento costeiro de Niterói, Santos e Sydney.”
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