Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
Uma reflexão sobre a grandeza feminina e o dever masculino de honrá-la
Existe um gesto anterior a todos os gestos. Um movimento que antecede a linguagem, o pensamento articulado, a própria ideia de civilização. Uma mulher erguendo o mundo com as mãos. Quase sempre em silêncio. Antes que houvesse palavra para nomear a coragem, já havia uma mulher a praticá-la. Antes que a filosofia se ocupasse do conceito de resistência, mães, avós, irmãs e filhas já o demonstravam com o corpo inteiro, sem necessidade de tese ou tratado.
Este texto não é homenagem protocolar. Não é elogio ritualístico de quem cumpre calendário. É confissão. A confissão de um homem que aprendeu, ao longo de uma vida cercada de mulheres, que a dignidade humana carrega rosto feminino muito mais vezes do que os livros de história ousaram registrar.
As que movem o mundo
Nas periferias do Brasil, aonde o Estado chega tarde ou simplesmente não chega, as mulheres inventam o cotidiano. Acordam antes do sol. Transformam o pouco em suficiente. Criam filhos com a fereza de quem sabe que o amor precisa ser, também, estratégia de sobrevivência. Carregam baldes, famílias, a dignidade de comunidades inteiras sobre ombros que a sociedade insiste em considerar frágeis. Não há fragilidade alguma em manter de pé uma casa sem alicerces, em alimentar bocas quando o armário desafia, em caminhar quilômetros sob sol inclemente porque alguém precisa de cuidado. E esse alguém sempre precisa.
Seria injusto, porém, confinar a mulher brasileira ao épico da adversidade, como se sua grandeza só se revelasse no sofrimento. Ela é igualmente imensa quando ocupa a cátedra, quando empunha o bisturi, quando se debruça sobre o microscópio.
Um nome cristaliza essa imensidão de modo quase inverossímil: Tatiana Sampaio, bióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Durante quase trinta anos de obstinação silenciosa, Tatiana desenvolveu a polilaminina, proteína capaz de estimular a reconexão de neurônios danificados na medula espinhal. Onde a medicina decretava sentença definitiva, ela ousou enxergar possibilidade. Dos oito pacientes que participaram dos testes iniciais, seis recuperaram movimentos que a ciência até então considerava irrecuperáveis. Um homem paralisado do ombro para baixo voltou a caminhar. Não com muletas metafóricas, não como figura de linguagem. Voltou a caminhar com as próprias pernas, empurrando a cadeira de rodas que antes o aprisionava.
Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início oficial do estudo clínico da polilaminina, primeiro passo para que essa descoberta brasileira alcance hospitais e farmácias. O que torna a narrativa ainda mais extraordinária é que ela quase não aconteceu. Cortes orçamentários fizeram o Brasil perder a patente internacional da proteína. A ciência mais promissora do país, liderada por uma mulher, sufocada pela miopia de quem não percebe que investir em conhecimento é investir em soberania.
Tatiana Sampaio não devolveu apenas movimentos a corpos paralisados. Devolveu algo que nenhuma ressonância magnética consegue medir: esperança. Com a tenacidade que é marca das mulheres que este país teima em subestimar.
A ferida aberta
Esse mesmo país que se beneficia da força feminina é o país que a agride. Os números dispensam adjetivos. Dispensam, aliás, qualquer ornamento.
O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que quase quatro mil mulheres foram assassinadas no Brasil em 2023. Uma média de dez por dia. Dez mulheres. Por dia. Enquanto o país comemorava a menor taxa geral de homicídios em onze anos, os assassinatos de mulheres cresceram 2,5%. A queda da violência, ao que parece, não alcança todas.
O Mapa Nacional da Violência de Gênero, divulgado pelo Senado Federal, registrou 718 feminicídios apenas no primeiro semestre de 2025: quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero. No mesmo período, quase 34 mil estupros contra mulheres, o equivalente a 187 casos diários. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, aponta que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025. Entre as vítimas, 71% relataram que havia crianças presentes durante a agressão.
Crianças. Testemunhando a destruição de suas mães.
Trinta e cinco por cento dos homicídios femininos acontecem dentro de casa. O lar, esse substantivo que deveria significar refúgio, convertido em campo de guerra. A violência psicológica contra mulheres em ambientes virtuais cresceu mais de 20% em 2025, com quase 60 mil vítimas, 163 por dia. Esses dados não se contemplam com o distanciamento clínico de quem analisa planilhas. São uma chaga civilizatória. Prova cabal de que falhamos, nós, homens, em honrar o mínimo que a convivência humana exige.
O dever que nos cabe
Falar de mulheres não pode ser exercício exclusivo do oito de março. Não é discurso de palanque, flor comprada às pressas, legenda bonita em rede social. Falar de mulheres é falar de justiça.
Justiça não admite sazonalidade!
A nós, homens, cabe uma tarefa que começa pela mais difícil das disciplinas: o exame de consciência. Quantas vezes confundimos proteção com controle? Quantas vezes silenciamos diante da piada que humilha, do gesto que constrange, da frase que diminui? Quantas vezes a nossa omissão foi cúmplice da violência que jurávamos combater?
Garantir que as mulheres vivam livres, respeitadas e seguras não é concessão. É obrigação. Não é generosidade. É decência elementar. Não é pauta política. É imperativo civilizatório. Essa garantia se constrói em cada gesto cotidiano: no modo como educamos nossos filhos, no tom que usamos com nossas companheiras, na recusa intransigente de normalizar qualquer forma de violência, seja física, psicológica, emocional ou patrimonial.
Porque a violência que mata começa muito antes da mão que agride. Começa no xingamento que se naturaliza, no ciúme que se romantiza, no salário menor que se aceita como ordem das coisas, na voz feminina que se interrompe porque alguém decidiu que ela não merecia ser ouvida até o fim.
Uma palavra pessoal
Escrevo estas linhas como neto, filho, marido, pai e avô de mulheres. Cada uma delas me ensinou, a seu modo, que a verdadeira fortaleza humana não se mede pela imposição da força, mas pela capacidade de sustentar, de cuidar, de recomeçar quando tudo parecia findado.
Minha avó me ensinou que dignidade não depende de circunstância. Minha mãe me ensinou que a ternura pode ser a forma mais radical de coragem. Minha esposa me ensina, todos os dias, que a parceria verdadeira exige a humildade de reconhecer no outro uma grandeza que nos completa. Minhas filhas me ensinaram que o futuro que desejo para o Brasil passa, necessariamente, pelo respeito irrestrito às mulheres que o habitam. Minhas netas me lembram, com a simples existência, de que cada palavra que digo, cada atitude que tomo, está construindo o mundo que elas vão herdar.
Meu compromisso, portanto, não é retórico. É pessoal, intransferível, cotidiano. Não aceito, e não aceitarei, que a violência contra a mulher continue sendo tratada como paisagem do nosso dia a dia.
Não é paisagem. É tragédia. E tragédias exigem de nós mais do que lamento: exigem ação, posicionamento, a coragem de estar do lado certo quando o silêncio seria mais cômodo.
Às mulheres que sustentam o céu mesmo quando o chão falta: o mundo ainda não é digno de vocês. Mas trabalharemos — com mãos, com voz, com consciência — para que um dia mereça ser.
José Manoel Ferreira Gonçalves
Março de 2026