*Por José Manoel Ferreira Gonçalves
Engenheiro, advogado e jornalista
A ilusão do poder e o eco da história
O século XXI parece ter herdado mais do que apenas inovações. Herdou, sobretudo, a soberba. A arrogância moderna – essa mesma que se disfarça de pragmatismo político e domínio tecnológico – reproduz em novos palcos as tragédias que já foram encenadas no passado. O enredo é o mesmo: impérios em crise, líderes que confundem força com sabedoria e sociedades que substituem reflexão por espetáculo.
Quando a América do Norte se volta contra si mesma, projeta para o mundo a inquietação de um império em declínio. No frenesi de sua própria instabilidade, lança mão da força para disfarçar o colapso interno. Como o Brasil de 2014 na semifinal contra a Alemanha, ignora a defesa, a estratégia, e, depois de tomar um gol, parte para o contra-ataque guiado por emoções. E como no futebol, na geopolítica a pressa cobra seu preço com juros impiedosos.
A repetição das tragédias gregas
A história já ensinou, mas poucos aprendem. As tragédias gregas estão repletas de personagens que, tomados pela hybris – a arrogância diante dos deuses e da razão – caminham em direção à ruína acreditando que dominam o próprio destino. Édipo, Agamêmnon, Creonte… todos figuras de advertência.
Na arena atual, os oráculos não falam mais com voz divina, mas ainda existem. Surgem em figuras como Lula da Silva, que mesmo alheio à liturgia do poder tradicional, aponta os erros do presente com base na experiência acumulada. Assim como Tersites em Homero ou o Velho do Restelo em Camões, seus alertas são ignorados por parecerem incômodos, dissonantes ou plebeus demais para as elites surdas.
Ciência e tecnologia, tragédias gregas, humanidade, arrogância
É nesse cenário que se torna evidente: se a ciência e a tecnologia avançam em velocidade espantosa, a humanidade caminha em círculos. O conhecimento técnico progride, mas a sabedoria estagna. A capacidade de destruição cresce exponencialmente, mas a empatia e a prudência continuam frágeis como em tempos antigos.
Invadir países como Iraque, Líbia, Afeganistão ou desejar controlar regiões como a Groenlândia não revela força, revela desespero. É a política do espasmo, da agonia do império. A mesma que alimenta a máquina de guerra quando faltam argumentos. No palco global, é a repetição cruel da tragédia de Prometeu: ao roubar o fogo (ou o petróleo), o castigo é eterno.
A fragilidade por trás da força
O perigo dos tempos atuais não está apenas nas bombas ou nos algoritmos de vigilância. Está na ignorância com acesso à tecnologia. Como alertava Sócrates, mais sábio é quem sabe que nada sabe. O verdadeiro risco são os que não sabem que ignoram e, mesmo assim, operam sistemas de destruição com a confiança de semideuses.
É por isso que as crianças de hoje não brincam mais que as de antes, apesar dos brinquedos digitais. Porque o que move a humanidade não são os objetos que produz, mas os sentimentos que carrega. E enquanto esses forem guiados pela vaidade e pela ilusão de superioridade, seguiremos reféns de uma tragédia anunciada.
O espelho da história
A leitura dos clássicos não é passatempo para eruditos. É ferramenta de sobrevivência. Camões, Homero, Virgílio, Sófocles, todos dialogam com o agora. O problema é que a humanidade, seduzida pela própria técnica, passou a acreditar que sabe mais do que sabe. E isso é, como ensinava a tragédia, o começo do fim.
Quem se recusa a ouvir os avisos do passado, tropeça nas pedras do presente e se perde nas sombras do futuro. E nessa jornada cega, nem ciência e tecnologia, tragédias gregas, humanidade, arrogância são suficientes para impedir o abismo quando falta humildade.
Que viva o Brasil, que viva a América, que viva a democracia!
*José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
Declaração de fontes: Este artigo foi elaborado com base em referências filosóficas e literárias clássicas (Camões, Homero, Sófocles), e nas tensões geopolíticas contemporâneas analisadas por diversos veículos internacionais. Também se apoia em crítica cultural e análises históricas disponíveis em publicações acadêmicas e jornalísticas.
Meta descrição: A repetição da arrogância imperial ao longo da história revela como a humanidade pouco aprende com as tragédias, mesmo diante de ciência e tecnologia cada vez mais avançadas.