ALMA DO CORINTHIANS EM JOGO 

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves | Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

Uma assembleia suspensa, uma dívida que corre 

Na véspera da votação, o freio veio da Justiça. Em 16 de junho, o Tribunal de Justiça de São Paulo  suspendeu a Assembleia Geral Extraordinária marcada para o dia 20, aquela que decidiria a reforma  do estatuto e destrancaria a porta para a Sociedade Anônima do Futebol. O desembargador relator  viu indícios de que o próprio rito do clube fora atropelado, e lembrou que a Constituição garante  autonomia às entidades desportivas. 

O pano de fundo não consola. Uma dívida superior a R$ 2,8 bilhões corrói o Corinthians, e os  juros engordam cerca de R$ 1,2 milhão por dia. A esse rombo juntam-se o financiamento da Neo  Química Arena, perto de R$ 642 milhões, e pendências que já custaram um embargo da Fifa.  Conselheiros recorreram à Justiça, a diretoria de Osmar Stabile resiste, e a torcida se divide entre  o medo da falência e o medo de perder o clube. Diante do abismo, virar empresa parece a saída  óbvia. A pergunta verdadeira é mais dura: salvar o quê, e a que preço? 

O que a Safiel promete ao Corinthians 

O grupo Safiel chega com um projeto vistoso. Promete captar até R$ 3 bilhões junto à torcida,  com cotas a partir de R$ 250 e voto reservado a corinthianos. Investidor de fora entraria apenas  por ações sem voto. A futura empresa herdaria o futebol profissional, masculino, feminino e de  base, com seus contratos, receitas e dívidas. Em troca, o clube social ficaria com participação  acionária, royalties pela marca perto de R$ 600 milhões em dez anos e uma golden share, o poder de  veto sobre decisões sensíveis. 

O desenho não para aí. Há vetos a qualquer mudança de nome, escudo, cores e símbolos, além de  uma cláusula de reversão que devolveria o futebol ao clube se a empresa descumprisse o  combinado. O cronograma fala em valuation por uma das quatro grandes auditorias, registro na  Comissão de Valores Mobiliários e operação plena cerca de um ano após o aceite. No começo do  ano, o grupo já oferecera dinheiro para derrubar o embargo e abater parte da dívida do estádio,  num adiantamento que viraria ações caso a SAF vingasse. No papel, tudo soa cuidadoso. A alma  do clube sairia blindada por cláusulas, e a conta, enfim, fecharia. 

A febre das SAFs e seus boletins desiguais 

A ideia não é exótica. Desde 2021, quando o Congresso criou a Lei da Sociedade Anônima do  Futebol, o país viu nascer mais de quarenta empresas do tipo nas divisões profissionais, e algo  perto de um terço da Série A já joga sob esse formato. A promessa se repete a cada anúncio: gestão  profissional, dinheiro novo, fim da bagunça amadora.

Os boletins, porém, vêm desiguais. O Botafogo virou a vitrine do modelo, com o Brasileiro e a  Libertadores de 2024 nas mãos de John Textor. Do outro lado, o Cruzeiro trocou de dono duas  vezes, recebeu R$ 600 milhões de um empresário do varejo, gastou alto e terminou a temporada  sem taça nem vaga na Libertadores. O Bahia, sob o Grupo City, comprou reforços e brigou na  frente da tabela. A leitura honesta é simples: a SAF não é varinha mágica. Vende ações, não  milagres. O dinheiro acelera quem tem rumo e aprofunda o buraco de quem não tem. 

As lições de quem virou ativo 

Um aviso fresco veio do Rio de Janeiro. O Vasco vendeu 70% da sua SAF à 777 Partners, firma  de Miami, por R$ 700 milhões. O grupo pagou menos da metade, ficou com 31% e mergulhou o  clube num cipoal de processos. Em maio de 2024, a Justiça devolveu a gestão à associação. Hoje  o Vasco tenta vender a SAF outra vez, por mais de R$ 2 bilhões, correndo atrás do tempo que  perdeu. 

O caso é maior que o Vasco. A 777 colecionava clubes mundo afora, do Genoa ao Standard Liège,  do Hertha ao Red Star, e ruiu depois de tropeçar na compra do Everton. A Justiça de Londres  decretou sua liquidação, e o cofundador Josh Wander acabou indiciado nos Estados Unidos por  um esquema de US$ 500 milhões para enganar credores. Em um dos lances, ele teria forjado no  Paint o extrato de uma conta, para simular um saldo que não existia. O dinheiro que comprava  times vinha de prêmios de seguradoras, desviados para clubes, companhias aéreas e jatos. 

A Europa guarda lições mais antigas. O Rangers, da Escócia, brincou de engenharia fiscal, caiu em  liquidação em 2012 e renasceu na quarta divisão, de onde levou quatro anos para voltar à elite. Na  Inglaterra, donos transferiram o Wimbledon para outra cidade e o rebatizaram de MK Dons. A  torcida recusou o enxerto, fundou o AFC Wimbledon do zero e, anos depois, subiu mais que a  franquia que herdou seu nome. 

Um clube que nasceu operário 

Para entender o que está em jogo, convém voltar a 1910. Numa noite de setembro, sob a luz de  um lampião no Bom Retiro, cinco operários fundaram o Sport Club Corinthians Paulista,  inspirados por um time inglês que excursionava pelo Brasil. O primeiro presidente, o alfaiate  Miguel Battaglia, cravou a sentença que viraria certidão: o Corinthians seria o time do povo, e o  povo faria o time. 

Daí em diante, o clube se confundiu com a cidade que trabalha. Foi a agremiação onde o pobre  podia jogar, a que ganhou a alcunha de Time do Povo e a carregou com orgulho. A mesma paixão  empurrou a Fiel para a Invasão de 1976, quando dezenas de milhares cruzaram o país atrás do  time no Maracanã. Décadas depois, esse DNA reapareceu na Democracia Corinthiana, quando  Sócrates e seus companheiros votavam no vestiário e entravam em campo contra a ditadura. Um  clube assim não cabe na casinha de um ativo no balanço. É um modo de ver o mundo, escrito em  mais de um século de camisa.

Existe caminho fora do mercado? 

Nada disso apaga o rombo. Quem defende a SAF acerta em um ponto: o modelo associativo, com  eleições viciadas e diretorias que vão e voltam, ajudou a cavar a dívida. Negar a crise seria  desonesto. A dúvida é se a única resposta passa por entregar o futebol ao mercado. 

O mundo mostra que não. A Alemanha sustenta desde 1999 a regra do 50+1, que mantém a  maioria dos votos com os sócios e impede o lucro de mandar sozinho. Nos Estados Unidos, os  Green Bay Packers pertencem aos próprios torcedores e não repartem dividendos. Na Espanha,  Real Madrid, Barcelona, Athletic e Osasuna seguem como associações, e ninguém os chama de  amadores. Há terreno entre o caos de agora e a venda do futebol: reestruturar a dívida,  profissionalizar a gestão sem renunciar ao controle, abrir os livros à Fiel. O próprio modelo da  SAF admite versões mais brandas, com o clube no leme. O gargalo raramente está na lei, e sim em  tratar a urgência como cheque em branco. Coragem não combina com pressa. 

A alma do Corinthians não cabe em planilha 

No fim, a conta esbarra no que ela não mede. Para o investidor, um clube é um fluxo de receitas,  uma marca, uma carteira de direitos. Já para o corinthiano, é herança, pertencimento e memória.  Essa alma não entra em valuation algum, e nenhuma golden share a recompra depois de perdida. 

A dívida é real e cobra decisão. Entregar o futebol a quem não sente a cor, porém, troca um  problema de caixa por um risco de identidade que pode não ter volta. O tribunal deu um intervalo  ao Corinthians. Que o clube aproveite para lembrar quem é antes de assinar quem será. 

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Saiba mais sobre o autor

 As informações deste artigo se apoiam na decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que suspendeu a assembleia de 20 de junho,  em reportagens do Meu Timão sobre a proposta da Safiel, em dados públicos sobre a Lei da Sociedade Anônima do Futebol e o  desempenho de SAFs brasileiras, e em registros sobre os casos do Vasco com a 777 Partners, do Rangers, do Wimbledon e dos  modelos associativos da Alemanha, dos Estados Unidos e da Espanha. 

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