Acorda, Fiel: para defender, não para entregar

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A SAFiel se anuncia como resgate. É rendição disfarçada. Resposta ponto a ponto a quem confunde uma dívida pesada com sentença de morte.

Por José Manoel Ferreira Gonçalves | Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

Respondendo aos argumentos favoráveis à SAF que vêm sendo divulgados por alguns segmentos da imprensa e das redes sociais, começo pela concessão honesta. A crise é real. A dívida pesa, os salários atrasaram e a gestão recente foi um naufrágio que terminou com um ex-presidente afastado e transformado em réu. Nada disso está em disputa. Em disputa está a conclusão. Do diagnóstico correto, o de que o Corinthians foi mal administrado, o panfleto salta para a terapia errada, a de que o clube deve entregar o futebol a um grupo de investidores. Entre a premissa e o salto existe um abismo lógico. É nesse abismo que mora o truque.

1. “Debater ou morrer” é chantagem, não argumento

O texto fecha com um ultimato: ou a SAFiel, ou o abismo. Falso. O Corinthians já tem um plano, e ele não se chama SAFiel. Chama-se Regime Centralizado de Execuções, está homologado, já começou a pagar credores e compromete um percentual crescente da receita, 4% no primeiro ano, 5% no segundo, 6% a partir do terceiro. Afirmar que a diretoria não apresenta nenhuma alternativa é falsear o quadro. A alternativa existe, é judicial, é blindada e não cobra a alma do clube como entrada. Quem mostra duas portas e tranca todas menos a própria não veio debater. Veio vender.

2. A aritmética do terror

As informações foram calibrados para apavorar. A dívida bruta real orbita os R$ 2,7 bilhões, não os R$ 3 bilhões anunciados com tanto gosto. A profecia dos R$ 13 bilhões em 2035 é a melhor amostra do método. Ela projeta juros compostos sobre uma gestão inerte, sem renegociação, sem corte de custo, sem crescimento de receita. Supõe que ninguém faça nada por dez anos para então concluir que é preciso fazer tudo agora, e do jeito deles. O tal R$ 1,2 milhão por dia segue a mesma receita. Aplica a taxa cheia sobre o passivo inteiro e ignora que o RCE nasceu justamente para renegociar e escalonar. Estatística sem gestão é espantalho. E espantalho serve para uma função apenas, assustar a Fiel para dentro do negócio.

3. Um clube não é uma padaria que se liquida

O patrimônio líquido negativo de R$ 700 milhões vira manchete de pânico: se vender tudo, ainda deve. A frase impressiona e ilude, porque confunde valor contábil com valor econômico. O que vale no Corinthians quase não cabe num balanço, a marca, uma das duas maiores torcidas do Brasil, o elenco, a Neo Química Arena, os direitos de transmissão. Nada disso se mede pelo custo histórico depreciado de um ativo. E reparem na ironia, é exatamente esse patrimônio invisível, subavaliado no papel, que a SAFiel deseja adquirir a preço de pânico. Quem grita que o clube não vale nada quase sempre é quem pretende levá-lo barato.

4. A Europa que eles não citam

As informações garantem que mais de 90% dos grandes clubes europeus viraram empresa e despeja Bahia e Bragantino como prova. Seleção a dedo. Os maiores clubes do planeta são o oposto disso. Real Madrid, Barcelona e Athletic Bilbao seguem clubes de sócios, controlados por seus torcedores, e figuram entre os mais ricos do mundo. A Alemanha protege esse princípio por lei, a regra 50+1, que mantém o controle nas mãos dos associados. O Bayern de Munique reúne 410 mil sócios, com 75% das ações em poder do clube. Esse é o topo da Europa, e é justamente o que a SAFiel não quer que você olhe. Sobre os exemplos escolhidos, vale a lupa. O Bragantino teve nome e escudo trocados e vingou como laboratório porque, no diagnóstico da própria imprensa, “não sofre pressão de torcida”. O Bahia virou satélite do City Group, dono de 90% do clube, e um torcedor histórico resumiu tudo em três palavras: “o Bahia acabou”. É esse o futuro que se reserva à maior nação corintiana?

5. O retrato de quem já entregou

Antes de passar a chave, observe quem já passou.

O Vasco vendeu o futebol à 777 Partners. A SAF nasceu com R$ 700 milhões de passivo, e a gestão americana ainda inflou a dívida em cerca de R$ 350 milhões, com uma administração que a própria Justiça classificou como temerária. Vieram a recuperação judicial e o indiciamento de 21 dirigentes. O dono do brinquedo, Josh Wander, se entregou à Justiça dos Estados Unidos e responde por uma fraude de US$ 500 milhões, com garantias que não existiam ou empenhadas em dobro a credores diferentes. Eis o espertalhão de cabeça de planilha em carne, osso e processo federal.

O Botafogo foi campeão da Libertadores e do Brasileirão e, mesmo assim, drenou perto de R$ 1 bilhão para tapar o rombo do Lyon, outro clube do mesmo dono, no regime de caixa único. John Textor terminou afastado pela Justiça arbitral. O próprio panfleto admite que o Glorioso vive “situação financeira perigosíssima”. Taça na galeria não é dinheiro no caixa. O Cruzeiro tem dono sério e dobrou a receita. Ainda assim viu a dívida subir para R$ 1,15 bilhão e fechou o ano com déficit de R$ 170 milhões. A lição é seca, a SAF não dissolve dívida. Mal-conduzida, ela aprofunda. SAF não é o antídoto da má gestão. É a má gestão com CNPJ novo e sócio estrangeiro.

6. Ação não é amor, e veto no papel não é poder

Resta o engodo final, o torcedor convertido em acionista, com “ganho patrimonial” e “democracia ampla”. Cautela. Ação de clube é um dos piores investimentos do mercado, sete das dez maiores ações de clubes do mundo valem hoje menos do que no dia da estreia em bolsa. E o pequeno acionista não decide nada. No Manchester United, a família proprietária se blindou com ações de supervoto enquanto a torcida protesta nas ruas há anos. As “salvaguardas imbatíveis” do projeto, o poder de veto e a cláusula de retomada, vivem num papel não vinculante. Quando o capital entra e os contratos se entrelaçam, veto vira enfeite e retomada vira processo. Pergunte ao Vasco quanto tempo leva e quanto custa retomar o que se assinou. A democracia de acionistas é o avesso exato da Democracia Corintiana. Lá mandava quem vestia a camisa. Aqui manda quem assina o cheque.

7. O que de fato está em jogo

O Corinthians nasceu em 1910, erguido por operários, time do povo desde o primeiro chute. Em plena ditadura, entre 1982 e 1984, Sócrates, Wladimir, Casagrande e companhia inventaram a Democracia Corintiana, em que jogador, roupeiro e treinador votavam com o mesmo peso. Virou símbolo mundial, reconhecido até pela Fifa, de que um clube pode ser governado pela própria gente. Esse é o patrimônio que planilha nenhuma precifica e aporte nenhum recompra. Convertê-lo em participação acionária não devolve o clube ao povo. Vende ao povo, a prestação e sob risco, aquilo que já lhe pertence por direito de história.

8. Má gestão se cura com boa gestão

A dívida é grande, não é eterna. Cura-se com competência, não com rendição. O RCE já renegocia e escalona. Os naming rights da Arena seguem em negociação. O Fiel Torcedor figura entre os maiores programas de sócios do país, e a torcida, sozinha, já reuniu dezenas de milhões na campanha da Arena. Existem instrumentos legítimos junto ao poder público, afinal o estádio nasceu de uma Copa do Mundo. Acrescente o feijão com arroz que toda casa séria pratica, cortar gasto supérfluo, esticar prazos, perseguir juro menor, profissionalizar a gestão sem terceirizar a soberania e abrir o livro-caixa à torcida. A Europa não ressurgiu das ruínas da guerra vendendo a própria soberania a fundos, ressurgiu com projeto e disciplina. Nenhuma nação virou potência entregando o leme a quem só enxerga a planilha do próximo trimestre. O Corinthians também não precisa.

A conta, a gente paga. A história, não.

Então acorda mesmo, Fiel. Acorda para ler o balanço, exigir gestão à altura e fiscalizar cada centavo. Acorda para defender, não para entregar. A escolha real não é debater ou morrer, é gerir ou se ajoelhar. Dívida tem fim. O que não se recompra, depois de vendido, é a alma de um clube que o Brasil inteiro aprendeu a respeitar. Bola pra frente, que a camisa fica conosco.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

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