A RETALIAÇÃO DO CARTEL

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves 
Engenheiro, advogado e jornalista 

O CREA-SP tentou construir uma sede de cento e setenta e três milhões de reais sem saber  que tipo de terra pisava. Não era descuido. Era método. A Concorrência Eletrônica nº  90004/2025 previa obra semi-integrada de cinco mil metros quadrados na Barra Funda, com  dação em pagamento de seis imóveis do Conselho. O critério de julgamento era menor preço,  mas na prática funcionava como leilão de imóveis disfarçado. Uma proposta vinte e quatro  milhões mais barata foi desclassificada. Quem denunciou fui eu. 

Certame suspenso 

O Tribunal de Contas da União recebeu minha denúncia sob o nº 016.878/2025-6. A área  técnica identificou indícios relevantes de irregularidades. O edital não tinha sequer um projeto  básico completo, contrariando o artigo 6º, inciso XXV, da Lei 14.133/2021. Faltavam  levantamentos topográficos, sondagens e ensaios geotécnicos. O CREA-SP admitiu em  resposta que as sondagens seriam responsabilidade da contratada. Isso é inconstitucional. Em  contratação semi-integrada o projeto executivo é da contratada, mas o projeto básico é  obrigação indelegável da Administração. 

O orçamento carecia de memória de cálculo e composição de custos. Quase nenhuma etapa do  empreendimento recebeu detalhamento adequado. A juíza Sílvia Figueiredo Marques  concedeu liminar suspendendo o certame. O Superior Tribunal de Justiça autorizou o  prosseguimento, mas o CREA-SP preferiu paralisar tudo sine die em setembro de 2025.  Depois do parecer do TCU, cancelaram o edital definitivamente. Cento e setenta e três milhões  voltaram para os cofres. Esta não era a primeira vez. Em 2022, a Concorrência 002/2022, de  cento e noventa milhões, também foi suspensa por liminar. Mesmo modelo, mesma trapaça.

A mesa de cartas do clubinho 

Vinícius Marchese preside o CONFEA desde 2023. Joel Krüger presidiu antes. Ricardo  Madalena, deputado estadual do PL, disputa a presidência do CREA-SP com apoio de Joel. Os  três formam um sistema de alternância no poder. Quando um sai, o outro entra. O CREA-SP  gastou milhões em consultoria para transformação digital, contratou comunicação  institucional, comprou equipamentos de climatização e serviços de segurança patrimonial  armada. Tudo por meio de licitações direcionadas. Mas a maior joia era a nova sede. Cento e  setenta e três milhões que teriam saído dos cofres sem projeto básico, sem estudos de solo,  sem transparência. 

Em dezessete de abril de 2026 protocolei minha candidatura ao CREA-SP. Em vinte e sete de  abril entreguei a complementação dentro do prazo. A Comissão Eleitoral Regional indeferiu  minha inscrição alegando falta de certidão cível específica do sistema E-PROC e insuficiência  na desincompatibilização. Documentos que eu havia apresentado. O mesmo rigor não impediu  que Ricardo Madalena mantivesse o gabinete de deputado enquanto usa a estrutura como  comitê eleitoral. Na mesma semana ingressei com Mandado de Segurança na 9ª Vara Cível  Federal de São Paulo, ação nº 5015496-84.2026.4.03.6100, exigindo meu direito de disputar  e a suspensão do processo eleitoral. 

A confraria sabe por que me exclui. Fui eu quem barrou os cento e setenta e três milhões. Fui  eu quem denunciou ao TCU. Fui eu quem trouxe a Justiça Federal para dentro do jogo. Cartas  marcadas só vencem quando ninguém olha para a mesa. Eu estou olhando. E estou  denunciando. 

Fontes: TCU (Denúncia 016.878/2025-6), Justiça Federal (Ação Popular 5023577-56.2025.4.03.6100 e Mandado  de Segurança 5015496-84.2026.4.03.6100), Confea, Crea-SP, Lei 14.133/2021, documentos judiciais e imprensa  especializada.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

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