A PAIXÃO (CORINTHIANA) NÃO É MERCADORIA 

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves 
Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

A pressa que cheira a desespero 

Toda venda apressada esconde um vendedor encurralado. O Corinthians deve R$2,8 bilhões e vê os  juros comerem R$1,2 milhão por dia. Nesse aperto, o grupo SAFiel renovou a oferta de captar até R$3  bilhões e prometeu tirar o clube da asfixia. A carta não obriga ninguém a nada, mas pede análise urgente.  Urgência, no vocabulário de quem negocia, costuma ser alavanca. 

Os números convidam à desconfiança. Um clube que arrecada perto de R$1 bilhão por ano vale só R$3  bilhões? O preço parece curto. Quando o ativo sai barato, alguém do outro lado faz o bom negócio. 

A proposta veste roupa de torcedor. Ações a partir de R$250, golden share, cláusula de reversibilidade,  governança repartida em quatro conselhos. No papel, o clube guarda a chave. No papel, a identidade  fica protegida. Promessas assim já enfeitaram outros contratos, e nem por isso resistiram ao primeiro  inverno. 

Um clube popular não cabe numa planilha. O afeto de milhões não vira linha de receita sem perder o  que tem de melhor. O perigo não está no nome trocado. Está no controle que escorrega aos poucos,  cláusula a cláusula, até a reversão virar letra morta. 

A lição que o Vasco pagou caro 

O Vasco já viveu esse filme. A 777 Partners chegou como salvadora, prometeu bilhões e pagou só 18%  do que combinou em negociações de atletas. Operava no esquema que um relatório resumiu sem  piedade: tomar de Pedro para pagar a Paulo. A dívida do grupo com a A-CAP alcançou US$350 milhões.  A Justiça do Rio tirou os americanos da SAF, e o fundo despejou Vasco, Gênova, Sevilla, Standard, Red  Star e Hertha no balcão. Seis clubes empilhados como garantia de um castelo de cartas. 

Mercadoria não tem torcida 

Lá fora os destroços impressionam mais. Em Blackpool, a família Oyston drenou cerca de 26 milhões de  libras do clube em dividendos disfarçados, e a arquibancada respondeu com um boicote de quase quatro  anos. Em Bury, o dono comprou o time por uma libra, não tinha caixa, e em 2019 a liga inglesa expulsou 

o clube. Século e meio de história fechou as portas com 12,5 milhões de libras de dívida. No dia em que  o time vira mercadoria, o aproveitador entra. A torcida fica com o luto. 

O que não se vende 

Nada disso defende a inércia. A dívida do Corinthians é concreta e cobra solução de adultos. Socorro de  verdade, porém, se mede pela letra miúda, pelo valuation honesto, pelo prazo sem chantagem, pela  contraparte com dinheiro no bolso, não em linha de crédito de seguradora. Quem entra com R$250  merece saber nas mãos de quem fica o controle quando a maré virar. 

A camisa não pertence a quem desembarca com a mala. Pertence a quem encheu a arquibancada por  cem anos. Antes de assinar qualquer papel, a diretoria deveria olhar para o Rio, para Blackpool, para  Bury, e perguntar quem saiu inteiro depois da festa. A resposta raramente é o clube. 

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Saiba mais sobre o autor

Fontes: O conteúdo se apoia na reportagem do Meu Timão sobre a nova carta de intenções da SAFiel ao  Corinthians, em noticiário sobre a saída judicial da 777 Partners da SAF do Vasco e o leilão de seus clubes, na  decisão da Justiça inglesa contra a família Oyston no Blackpool e na expulsão do Bury FC da liga inglesa em  2019. 

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