A alma não cabe no balanço

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Por José Manoel Ferreira Gonçalves | Engenheiro, advogado e jornalista
Sócio do Corinthians desde 1982, #55paixaocorinthiana, #zemanoel

Chamam o projeto de Safiel. É a SAF da Fiel. O nome já entrega o golpe: querem a torcida como isca para levar o Corinthians a preço de pânico. A dívida é real. A rendição é que é opcional.

Há uma frase rondando o Corinthians, e ela tem cheiro de chantagem. Ou o clube vira empresa do jeito que os arautos da Safiel querem, ou despenca no abismo. Não existiria terceira via. Existe, sim. Chama-se gestão.

Começo pelo que ninguém disputa. A crise é grave e antiga. O balanço de 2025, aprovado pelo Conselho, fechou com dívida bruta perto de R$ 2,7 bilhões e patrimônio líquido negativo de R$ 774 milhões. A liquidez secou a ponto de contaminar o futebol. O clube passou meses sob transfer ban e, para segurar o Garro, trocou uma dívida em euros por outra ainda maior, com juro de banco. Nada disso eu nego. Quem me conhece
sabe que cobro isso há anos.

O que não engulo é a aritmética do susto.

Os profetas da Safiel anunciam que, em 2035, a dívida será de R$ 13 bilhões. Reparem como chegam lá. Empilham juros sobre juros, ano após ano, sobre uma gestão que imaginam paralisada. Sem renegociar nada. Sem cortar um centavo. Sem fazer crescer uma só receita. Tratam o passivo inteiro com taxa cheia e fingem que o Regime Centralizado de Execuções não existe, quando ele nasceu justamente para escalonar: 4% das receitas no primeiro ano, 5% no segundo, 6% a partir do terceiro, ao longo de uma década. A conta deles supõe que a nação corintiana inteira, conselho, sócios e arquibancada, vai cruzar os braços por dez anos como um bando de imbecis. Isso não é projeção. É espantalho. E espantalho presta para uma coisa só: empurrar a Fiel para dentro do negócio… no susto.

Vem então a segunda mágica, a do valor. Repetem que o patrimônio do clube é negativo, como se aquilo fosse o preço do Corinthians. Confundem, de propósito, o que o contador anota com o que o mundo paga. No papel deprimido cabe o Parque São Jorge pelo custo histórico. Não cabe a maior torcida do país. Não cabem a marca, o elenco, a Neo Química, os direitos de transmissão, o nome que o Brasil inteiro aprendeu a respeitar. Quem grita que o clube não vale nada quase sempre é quem pretende leválo. Baratinho.

Os defensores da Safiel têm argumentos, e é justo encará-los de frente.

Dizem que a operação democratiza o poder, com cinco comitês, e que o voto do pequeno torcedor pesaria igual ao dos grandes. Bonito no papel. Só que dinheiro não respeita organograma. Quando o capital entra, os contratos se entrelaçam, e o veto reservado à arquibancada vira enfeite de vitrine. O Corinthians já inventou a democracia a sério, em plena ditadura, quando Sócrates e companhia botaram todo mundo para votar, do craque ao roupeiro. Aquilo era pertencimento. Comitê de acionista minoritário é outra conversa. Pergunto: onde, no planeta, um sócio de varejo decidiu alguma coisa contra o dono do bloco de controle? Em lugar nenhum. Manda quem assina o cheque.

Dizem também que o preço não sairá de um chute, que uma das grandes consultorias fará o valuation. Pois eu quero auditoria, e quero séria. Mas auditoria não é profecia, e selo de consultoria famosa não garante nada. No Vasco, foi uma das maiores do mundo que abençoou a venda para a 777 Partners. Deu no que deu. Ancorar o preço do Corinthians no tamanho da dívida, aliás, já é o próprio pânico vestido de cálculo.

E dizem, por fim, aquilo que respeito de verdade: que o tempo corre contra, que o estatuto afunila os candidatos, que esperar a renovação por dentro custa caro. Concordo. Concordo inteiro. O funil precisa ser arrombado, a Lei Geral do Esporte aplicada, a governança refeita com urgência de ontem. Mas reparem na armadilha. Da pressa verdadeira eles extraem a conclusão falsa. Como reformar demora, então entregue. Não. Pressa justifica fiscalização e mudança de estatuto. Pressa não justifica vender a alma.

Querem ver aonde a alma vendida vai parar? Olhem o Rio.

O Botafogo virou SAF, foi campeão da Libertadores e do Brasileiro e, ainda assim, viu o controlador estrangeiro drenar centenas de milhões para tapar o rombo de outro clube do mesmo grupo, o Lyon. Dinheiro de premiação de título escoou para a França. O elenco campeão foi desmontado. A Justiça acabou afastando o dono, e o clube carrega hoje dívida tão monstruosa quanto a nossa. Tudo isso pelo regime de caixa único que a SAF traz no sangue: clubes tratados como gavetas de um mesmo cofre, e o sócio brasileiro pagando a conta do prejuízo alheio.

O Vasco conta a mesma fábula com outro sotaque. A SAF foi vendida a um fundo que já estava quebrado quando comprou. A dívida, que beirava R$ 700 milhões, inchou em mais R$ 350 milhões sob a nova dona. Vinte e um dirigentes e conselheiros terminaram indiciados por uma comissão interna, em meio a balanço maquiado e empresa de fachada. Prometeram salvar. Entregaram recuperação judicial.

É essa a vacina que querem injetar na gente. Uma vacina que, lá fora, espalhou a doença.

Eu prefiro o caminho que dá trabalho. Flamengo e Palmeiras estavam atolados e se reergueram sem entregar o clube a ninguém. Puseram gestão profissional a serviço do sócio, não do acionista. Cobraram, fiscalizaram, renegociaram, fizeram receita crescer. A Fiel, quando quis, juntou dezenas de milhões numa vaquinha para a Arena. Não precisamos de salvador caído de paraquedas. Precisamos de balanço aberto todo mês, de torcedor lendo planilha como lê escalação, e de cadeia para quem transformou o Corinthians em mina pessoal. Comecem por aí. Devolvam ao clube o que furtaram dele.

Dívida a gente calcula, audita, renegocia e paga. Já enterramos coisa pior.

A alma é que não tem segunda compra. Quem vende, vende uma vez. E a do Corinthians não está no varejo.

José Manoel Ferreira Gonçalves

José Manoel Ferreira Gonçalves

Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 20 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública.

Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador e presidente licenciado da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

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