Santos em Chamas

Santos em Chamas

Mal iniciava abril e mais uma vez o maior porto da América Latina se via novamente ameaçado por um
sinistro de grandes proporções. Toda a logística ameaçada, todo o patrimônio público investido
ameaçado, a população em pânico. Toda Santos a mercê de um milagre, a mercê dos santos.
Sim, por milagre os enormes prejuízos e efeitos nefastos não se espalharam e comprometeram desde o
conteúdo do tanque até a imagem do nosso país; desde o desafio da lógica à vida de inocentes, desde o
grande porto à cidade histórica de Santos.
Acidentes, contudo, acontecem e é difícil uma operação que não envolva algum risco.
A usina de Chernobyl (de pretenso risco zero e que em abril [sempre o aziago abril] de 1986 matou milhares
de pessoas e prejudica outras tantas até os dias de hoje) não me deixa mentir. Mas a questão que se coloca é:
qual a intensidade de risco é necessário assumir? No caso em tela vários fatores mostram que ele é muito maior
que o necessário e estamos aqui para, junto com a população, cobrar que seja diminuído. Como se verá, não
é tão difícil reduzir esse risco, basta atentar para os problemas. Claro está que não temos varinha de condão,
nem soluções mágicas, mas única nos auxilia a lógica, e, diga-se, uma lógica básica, um raciocínio quase elementar.
Em primeiro lugar a questão dos escritórios ao lado dos tanques. Um projeto desses precisa ser levado
a juízo, alguém precisa ser responsabilizado, sob pena de nunca acontecer nada, digo, de nada vir a mudar.
Além da evidente exposição da vida dos trabalhadores, em se salvando estes a documentação mesma
fica comprometida.
Na verdade, há algo primeiro, algo que se faz primeiro: há-que se mudar as normas
técnicas. Nossas normas estão, por assim dizer, subdimensionadas, especialmente se considerarmos as vigente
s nos grandes portos europeus.
A distância mínima entre os tanques, como é notório, precisa ser elevada pelo menos ao ponto de alcançar
a condição de quando um tanque sofrer sinistro não colocar, ato contínuo, os demais tanques vizinhos
em risco iminente.

Outro fator que tem se mostrado falho é referente à fiscalização. Uma maior fiscalização é condição sine
qua non para que esses riscos sejam contidos. Não acusamos aqui os agentes fiscais, que no mais têm
realizado razoavelmente seu trabalho, mas eles são poucos, mal preparados e aparelhados. Infelizmente a
tecnologia tem sido muito rapidamente aplicada no entretenimento e nas quinquilharias a serviço da
notabilidade, da distinção
entre pares, da ostentação, mas é esquecida em questões de tão sumária importância como a segurança.
É preciso também mais coragem para fiscalizar mais, com o rigor que a situações requerem, e exigir o
cumprimento das atuais normas e regulamentos.
Sem esmorecer, responsabilizar e multar todos os envolvidos que licenciaram ou licenciam atividades
dessa importância e risco.
Fazemos essas observações na semana de importante reunião na Associação de Engenheiros e Arquitetos
de Santos, a respeito do assunto aqui tratado, evento que é merecedor de todo o nosso apreço e apoio,
assim como foi o realizado pela OAB–Santos.
E além disso, este artigo procura divulgar, através deste prestigioso jornal, orgulho de todos nós na baixada
santista, o surgimento do Comitê de Acompanhamento pela Cidadania das ações e providências que estão
sendo adotadas e outras que poderão vir a colaborar no combate efetivo às causas reais do lamentável e
previsível incidente.
Desse comitê participarão especialistas de vários segmentos, tais como biólogos, engenheiros,
urbanistas, advogados entre outros, não como representantes das entidades já envolvidas e empenhadas,
tais como a OAB, o CREA e a Associação de Engenheiros, mas como especialistas, estudiosos, professores e
técnicos, que voluntariamente, colaborarão inclusive na apuração dos fatos ora investigados no Inquérito
Civil aberto pelo Ministério Público.

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera

Compartilhe

José Manoel Ferreira Gonçalves é graduado em: Engenharia Civil, Jornalismo e Direito. Além das graduações tem cinco especializações (latu sensu): Termofluidomecânica, Geoprocessamento, Engenharia Oceânica História da arte Ciências Políticas Fez ainda Mestrado e Doutorado (stricto sensu): Mestrado – Engenharia Mecânica, Doutorado – Engenharia de Produção e Pós-doutorado na área de logística. José Manoel atuou em áreas diversas, como engenharia civil, tendo sido diretor do SECOVI, jornalismo (com destaque para a rádio Jovem Pan), professor universitário e diretor de campi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest

Share This
Receba dicas e informações

Receba dicas e informações

Cadastre seu e-mail e receba as últimas notícias.

José Manoel Ferreira Gonçalves é um dos maiores especialistas do Brasil no tema ferrovias, seja no transporte de cargas, seja no transporte de pessoas inter e intramunicipal.

 

You have Successfully Subscribed!