História despercebida – a linha férrea que mudou Alagoas

História despercebida – a linha férrea que mudou Alagoas

Chega o trem na Estação Maceió (nesta reportagem chamada de Central) ou, como agora é denominado, Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). As pessoas passam pela catraca, entram no trem e escolhem seus assentos.  Agora, ao contrário de alguns anos atrás, o ambiente é climatizado. Pontualmente na hora marcada, a viagem se inicia com destino a Lourenço de Albuquerque, em Rio Largo, na Região Metropolitana da capital alagoana.

Já na primeira parada, na Estação Mercado, o trem começa a se encher de povo. São trabalhadores que compraram produtos para revender em seus bairros. Segue a viagem e logo a linha férrea margeia a Lagoa Mundaú, passando pelas estações do Mutange, Sururu de Capote e Bebedouro até Fernão Velho. A paisagem muda e a mata na janela ganha o horizonte, numa silhueta perfeita com as águas da Lagoa.

O trem chega à estação da Usina Utinga Leão, após passar por Satuba. Momentos antes de chegar à estação Gustavo Paiva, em Rio Largo e antigo polo industrial de Alagoas, a paisagem ainda verde por causa da mata ganha ares de interior e volta ao passado com gado e lavadeiras na beira de um rio.

O trem segue e chega a Lourenço de Albuquerque, o fim da linha. Funcionários da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) preparam tudo para o trajeto de volta, mas a sensação que fica é que o trem poderia – deveria – ter seguido viagem e de que há muito mais do que percebem os passageiros.

Muitos maceioenses e alagoanos ainda não conhecem este lado da capital e Região Metropolitana: uma Maceió bucólica e cheia de encantos, que pulsa História também por suas lagoas e matas, tendo como guia a linha férrea, onde o trem era a “Estrela Radiosa”, agora VLT.

A linha de Maceió até Lourenço de Albuquerque é registro histórico de uma Alagoas que buscou se desenvolver e conectar com o mundo além do horizonte proporcionado pelo Oceano Atlântico por meio do Porto de Maceió.

É muita História em pouco mais de uma hora de trajeto.

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População na Estação de Jaraguá durante embarque e desembarque nos anos 1920 (Foto: Acervo/Claudio Vitoriano)

Estação Jaraguá: um século e meio de História

 

Atualmente, onze mil pessoas utilizam o VLT diariamente. São 25 viagens entre a estação Central e Lourenço de Albuquerque, em Rio Largo. E quarenta da Central para Jaraguá, trecho recém-inaugurado, em outubro de 2017.

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Economista Cícero Péricles explica importância da linha férrea para o desenvolvimento de Maceió (Foto: Sandro Lima)

Ao todo, são 16 estações e 34km de linha férrea, com operação de oito VLTs e duas locomotivas.

O advento da Era ferroviária em Alagoas data do ano de 1864. De acordo com o livro “Capitalismo e Ferrovias no Brasil”, do historiador Douglas Apprato, o marco inicial da construção da primeira ferrovia em solo alagoano foi a lei sancionada pelo então vice-presidente da Província de Alagoas em exercício, Roberto Calheiros de Melo: “Fica o governo autorizado a mandar proceder aos estudos necessários a fatura de uma via férrea, que partindo do Porto de Jaraguá, ponha esta capital como o centro desta Província”.

Em 1866, o transporte dos gêneros que chegavam a Maceió para o Porto de Jaraguá, via Trapiche da Barra, era considerado bastante difícil e foi a partir de reclamações de comerciantes e agricultores que surgiu a iniciativa da linha férrea até Jaraguá.

A lei 481, de 23 de junho de 1866, aprovou os contratos celebrados com Companhia Baiana de Paquetes a Vapor e instituía a navegação a vapor entre o Trapiche e as vilas de Pilar, Alagoas do Sul (hoje Marechal Deodoro), Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco, bem como de uma estada de ferro ligando o Trapiche ao Porto de Jaraguá.

“Não restam dúvidas de que se tratava de uma medida de grande alcance social e econômico dentro dos padrões técnicos mais avançados da época e trouxe vantagens práticas indiscutíveis para o serviço de cargas e passageiros na região”, ressalta Apprato.

A festiva inauguração do primeiro ramal ferroviário desse empreendimento em 25 de março de 1868, ligando Jaraguá ao Centro de Maceió, é considerada por muitos o início da Era das estradas de ferro em Alagoas.

Integrado à navegação das lagoas, o novo empreendimento conduziu no seu primeiro mês cerca de 400 passageiros e considerável volume de carga, deixando a quantia de mais de um conto de reis para as despesas de custeio e encorajando o alongamento desse ramal até o pátio da Igreja dos Martírios e Rua do Comércio, com carros conduzidos por animais.

Modernidade transforma Maceió em capital

 

O bairro de Jaraguá se transforma na efervescência da cidade e vira uma espécie de “centro da moda” no viés econômico da nova capital.

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( Foto: Adailson Calheiros )

O lado desenvolvimentista da nova capital da Província é ratificado pelo economista Cícero Péricles no seu livro “Formação Histórica de Alagoas”, quando afirma que “desde a metade do século 19, Maceió passa por profundas transformações e afirma-se como a cidade mais importante da Província, representando a uma só vez a capital política, administrativa e o principal núcleo comercial”, destaca.

“A concentração das exportações por Jaraguá com seus muitos trapiches transforma a capital num centro urbano e campo de serviços central para uma economia agroexportadora que atendia com sua rede de serviços o seu hinterland no sentido de escoar o açúcar, algodão, e outros produtos menos importantes”, relata Péricles.

O economista ressalta que a nova posição de Maceió exigia melhoramentos urbanos como calçamento, dessecação dos pântanos, iluminação e abastecimento de água.

LINHAS FÉRREAS

Por outro lado, o abastecimento de sua população justifica o desenvolvimento de uma rede de transporte ligando a cidade a seu entorno, como as localidades banhadas pelas lagoas Mundaú e Manguaba, principalmente Alagoas do Sul (Marechal Deodoro) e o Pilar.

“A partir de 1868, o Porto de Jaraguá é ligado por uma linha férrea ao Trapiche que, por sua vez, via navegação, conectava a cidade às duas lagoas no transporte de cargas e passageiros. Outros dois portos lagunares, Levada e Bebedouro, fariam anos depois este mesmo papel integrador. Barcos a vapor ampliam o serviço de interligação entre Maceió e as localidades lagunares, com forte movimento de mercadorias e passageiros”, diz Péricles.

“Mais adiante, a inauguração da ferrovia Maceió-Imperatriz (União dos Palmares) cobrindo os vales do Paraíba e Mundaú reforça ainda mais a presença do Porto de Jaraguá como desaguadouro de toda produção açucareira estadual”, completa Péricles.

Do combate à escravidão à mudança na estrutura política

 

Quem embarca na Estação Central, não imagina o tanto de História que há no lugar. Fundada no século 19, com o país ainda sob o Brasil Império, o local preserva cerca de 80% de sua estrutura original.

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Estação Central, construída no século 19, ainda mantém cerca de 80% de sua estrutura original (Foto: Acervo/Edberto Ticianeli)

“As reformas que foram feitas aqui sempre buscaram manter a característica original do prédio”, diz a assessoria da CBTU.

A “The Alagoas Brazilian Central Railway Company Limited”, conhecida como Alagoas Railway e de origem britânica, foi fundada em 1873 para explorar linhas férreas em Pernambuco e Alagoas. Segundo o pesquisador inglês William Edmundson, que lançou, em 2016, um livro sobre o trem, a empresa foi a primeira no país a proibir a exploração de trabalho escravo.

“Além de dar sua contribuição para acabar com a escravidão, a empresa ajudou a valorizar o trabalho quando colocou engenheiros britânicos para pegar no pesado”, afirmou William Edmundson à imprensa durante lançamento de seu livro, intitulado “A Gretoeste: A história da rede ferroviária Great Western of Brazil”.

Com o fim do Império, a empresa foi absorvida pela Great Western que,  em 1950, foi encampada pela União sendo transformada na Rede Ferroviária do Nordeste (RFN). Hoje, quem opera o sistema é a CBTU.

A influência da linha férrea na economia desequilibrou o centro do poder no estado, concentrando a circulação de riqueza nas áreas beneficiadas pelos trens. Não é à toa que a distância entre Porto de Jaraguá e a estação Central tem poucos quilômetros.

Isso foi um dos principais fatores que fizeram de Maceió a nova capital da Província, com o escoamento da produção açucareira e a chegada de produtos de outras localidades, o que fortaleceu o comércio maceioense a ponto de não fazer sentido que a capital fosse em outro local.

“Naquela época a economia tinha o trem como vetor fundamental no progresso da nova capital”, ressalta o economista Cícero Péricles.

VLT como transporte sofre preconceito

Outrora símbolo de modernização, hoje o trem como meio de transporte é voltado às classes menos abastadas. Ao menos esse é o perfil identificado pela Companhia.

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Para Darcírio Magalhães, funcionário da CBTU, existe muito preconceito com o VLT (Foto: Adailson Calheiros)

Há vinte anos na CBTU, o maquinista Darcírio Magalhães acredita que as pessoas têm visão deturpada sobre o trem. “Há muito preconceito. As pessoas o têm como transporte de pobre. Acho que por causa do valor, pois é muito barato mesmo, e dos locais por onde passa. Mas isso é um contrassenso porque em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Nova Iorque, altos executivos andam de trem”.

Darcírio ressalta o desconhecimento das pessoas sobre a História da linha férrea no estado. Para ele, parte desse problema é o fato de o meio de transporte não estar acessível à maioria.

“Se conhece muito pouco da História da linha férrea e sua importância para Alagoas. Minha nora, por exemplo, só conheceu o trem neste ano. Acho que parte desse desconhecimento também vem de nossa localização, pois não chegamos aos bairros mais populosos de Maceió, como o Tabuleiro. Só passamos pela região à beira da Lagoa. As pessoas não conhecem o trem. Nisso, nós também não cumprimos nossa parte em relação à mobilidade. Somos mais baratos e não temos o caos do trânsito”, analisa o maquinista.

Contudo, Darcírio, com 20 anos na profissão, lembra que já transportou produção de açúcar e álcool ao comando de um trem.

“Sei da importância da linha férrea para escoamento de produção, principalmente de açúcar e álcool, mas antes, quando iniciei aqui, havia mais interligação”, comenta.

Uma mostra de como as pessoas não se dão conta da História contida na linha férrea Maceió/Lourenço de Albuquerque é o estudante de Edificações do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) Weberth Ferreira.

Ele se recorda de ter tido acesso a alguma informação na escola, mas nada que o fizesse guardá-la na memória.

“Comecei a usar o trem há pouco tempo, já vi algo sobre a História dessa linha férrea na escola. Seria interessante que se divulgasse mais”, diz de forma resumida para não perder seu embarque.

Já Lenita de Lima garante sempre usar o trem como meio de transporte, hábito que adquiriu no Rio de Janeiro, cidade de onde veio.

“Sempre ando de trem, seja por causa do valor da tarifa, seja por causa da comodidade. Sou do Rio e vivo aqui há 23 anos e lá é hábito usar o trem, mas confesso que tenho pouca noção da História de Alagoas que está na linha do trem. Falta divulgar mais”, diz Lenita.

Hidroavião e Feira do Rato, a força econômica da Levada

 

O bairro da Levada existe desde o tempo do Brasil Império. Lá moravam famílias de classe média e, por ser próximo ao Centro de Maceió e ter um aeroporto – e porto lagunar –, o local, às margens da Lagoa Mundaú, sempre teve relativa importância econômica na cidade. Hidroaviões chegavam às águas do bairro até meados do século 20.

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Panorâmica constata relação intrínseca entre linha férrea e o comércio da Levada (Foto: Sandro Lima)

A linha férrea corta o bairro e passa por meio de feiras e ao lado dos mercados da Produção e do Artesanato. No sentido Estação Central/Lourenço de Albuquerque, lá está a segunda parada. Ao passar pelo local, nota-se o peso do comércio no bairro. Característica remanescente desde o final do século 19 e início do 20.

A relação da população da Levada com a linha férrea passou a ser pitoresca. É lá que por muito tempo uma dessas feiras se instalou sobre o trilho do trem, agora VLT. A Feira do Rato, como era conhecida, chegou a ser ponto turístico e ganhou mídia nacional. Ao ouvir o apito do trem, os feirantes retiravam, às pressas, seus produtos de cima do trilho. Assim que ele passava, tudo voltava como estava. Era uma movimentação intensa e um corre-corre alucinante. A Feira do Rato foi fechada em 2011.

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Feira do Rato promovia um corre-corre alucinante quando o trem passava (Foto: Arquivo/Sandro Lima)

Para a construção do Mercado da Produção, o canal da Levada – local por onde chegavam embarcações – foi aterrado, suas águas foram drenadas e centenas de casas foram desapropriadas no ano de 1975, cujo governador era Divaldo Suruagy.

Mas antes disso, o canal já sofrera outro aterramento, em 1915. O então governador Clodoaldo da Fonseca iniciou a construção do porto da Levada, destinado a pequenas embarcações para abastecer o mercado público. A obra só veio a ser inaugurada em 1925, na gestão do governador Costa Rego.

“A movimentação econômica nesta parte de Maceió era de tal magnitude que imaginamos mesmo ser um charme um hidroavião pousando em meio àquela efervescência ali no porto da Levada”, destaca Péricles.

Charme e efervescência cultural em Bebedouro

 

Um dos bairros mais charmosos de Maceió é o de Bebedouro. Localizado às margens da Lagoa Mundaú, ele até hoje possui características do passado, mais parecendo uma cidade do interior. São casarões ao lado de casas “porta e janela”, igrejas e praças que dão ao lugar um ambiente nostálgico.

Nesse bairro as pessoas ainda ficam nas portas de casa em bate-papo com vizinho no fim de tarde. As crianças brincam nas praças e vendedores de pipoca completam a paisagem.

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Estação de Bebedouro faz parte da vida cultural do bairro (Foto: Adailson Calheiros)

Na década de 1950, Bebedouro possuía o status de “bairro da elite alagoana”, porque lá residiam as famílias mais tradicionais. Um dos grandes símbolos da região era o Major Bonifácio da Silveira, carnavalesco e criador do bloco “Caboclinhas do Major Bonifácio”, cuja rota Bebedouro – Praça dos Martírios era um dos recantos do frevo de rua e também passarela do Corso.

A linha férrea passa por ali desde o século 19. Ou seja, desde que chegou a Maceió, o trem passa por Bebedouro. Sua estação ferroviária foi inaugurada em dezembro de 1884 e, desde então, passou por uma única reforma, em abril de 1993. Exceto pela plataforma de embarque e desembarque, toda sua estrutura ainda é original.

Em seu início, a estação de Bebedouro também tinha transbordo de mercadorias e passageiros para navegação fluvial em Alagoas. A proximidade com a Lagoa até hoje influencia na dinâmica do trem.

Segundo Graziela Araújo, há 13 anos funcionária da CBTU, a população de Bebedouro tem identidade com o trem.

“Mesmo aqui sendo um bairro próximo ao Centro e com opções de transporte como ônibus e lotação, muita gente prefere usar o VLT. Mesmo pessoas de bairros próximos vêm até aqui para usá-lo e na época da pesca de sururu muita gente vem até Bebedouro pelo VLT para pescar e depois vendê-lo em seus bairros”, comenta Graziela.

SINFONIAS

Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, o maestro Hekel Tavares – nascido em Satuba em junho de 1896 e falecido no Rio de Janeiro em agosto de 1969 – morou no bairro de

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Fernando Gomes, médico e pesquisador: ‘Essa valorização do trem é muito importante porque Maceió precisa respirar, revalorizar o ser humano’ (Foto: Wellington Santos)

Bebedouro antes de ir para a capital fluminense, onde fez fama. “Hekel foi um músico espetacular que se notabilizou internacionalmente”, ressalta o cirurgião público e pesquisador Fernando Gomes. “Ele vivenciava aquele ambiente magistral de Bebedouro. O barulho e o movimento do trem o influenciaram e sensibilizou sua musicalidade. Então, tanto a paisagem lacustre como o movimento do trem aguçaram mais ainda sua música, que se notabilizou internacionalmente. Ele era, ao mesmo tempo, um homem folk e erudito”, diz Gomes.

HUMANIZAÇÃO

Para o pesquisador, valorizar o uso do trem – ou VLT – como meio de transporte significa tornar Maceió mais humanizada.

“Essa valorização do trem é muito importante porque Maceió precisa respirar, revalorizar o ser humano, a natureza, e ter certa distância entre os ambientes edificados. Isso significa uma cidade mais humanizada, para sair desse estresse que o automóvel causa aos cidadãos.  A revalorização dos trilhos urbanos é muito importante para a cidade respirar e o poder público precisa repensar isso urgente”, afirma Gomes.

No entorno da Carmen surge comunidade operária

 

O bairro de Fernão Velho, localizado às margens da Lagoa Mundaú, ainda tem ares do período em que surgiu, no entorno de uma fábrica têxtil, chamada Carmen. São ruas estreitas e de paralepípedo. E ainda no início do século passado, os trabalhadores já se organizavam politicamente.

A Fábrica Carmen foi inaugurada em 1858 por José Antonio de Mendonça, o Barão de Jaraguá, mas há certa controvérsia em relação a essa data porque alguns registros apontam que ela só entrou começou a funcionar em 1863. Contudo, o que é perceptível para qualquer pessoa com olhar mais atento é que a fábrica é o centro do local e não é à toa que sua estação ferroviária fica em frente a sua entrada principal, do outro lado da rua.

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Estação de Fernão Velho foi erguida em frente à entrada principal da Fábrica Carmen (Foto: Sandro Lima)

O bairro de Fernão Velho fica cerca de 13km distante do Centro de Maceió e, apesar de existir a opção do ônibus, boa parte dos moradores prefere pegar o trem, agora VLT. Segundo Tamires Correia da Silva, funcionária da CBTU, cerca de 250 pessoas embarcam na estação todos os dias.

“Tanto faz se é novo ou mais idoso. Todo mundo prefere pegar o VLT aqui. É mais cômodo, confortável e mais barato que o ônibus. Sem falar na segurança. Tem muito assalto nos ônibus”, comenta Tamires.

Segundo o economista Cícero Péricles, Fernão Velho deu origem a movimentos organizados de trabalhadores ao ponto de até os dias atuais, políticos usarem os festejos juninos e o trem para se aproximar dos moradores do bairro.

“Todo aquele entorno fabril pulsava a energia e a força do proletariado e foi dali que surgiram grandes movimentos de cunho político, mas também uma atmosfera de muita alegria. Até hoje o poder público se engaja com o Trem do Forró, que chega até a estação de Fernão Velho nas festas juninas”, destaca Péricles.

A Fábrica Carmen foi fechada em janeiro de 2010 e devido ao grande volume de passivos – inclusive trabalhistas – seu espólio foi a leilão e arrecadou somente R$ 300 mil, mas acabou sendo anulado pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Alagoas.

Se a fábrica já há oito anos não fia mais, a estação ferroviária segue na ativa. Ela foi inaugurada em 1884 – vinte e seis anos depois da Fábrica Carmen que, em seu apogeu, possuiu cerca de quatro mil empregados que viviam na vila operária construída pela empresa, dando origem ao bairro, até pouco tempo distrito de Maceió.

Trem a serviço da produção

 

Ainda sobre o horizonte verde da mata, o VLT chega à Estação Utinga, situada em frente à Usina Utinga Leão, outrora uma das poderosas do ramo da cana-de-açúcar em Alagoas.

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Usina Utinga, em 1956, tinha ferrovia própria, mas não é possível saber pela foto se os trilhos são da atual linha da CBTU ou de seus ramais (Foto: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros)

A usina foi fundada em 1894, por Luiz de Amorim Leão Filho e é outro forte componente econômico da região por onde passa o VLT e onde transitou o velho trem. Uma prova de sua força é o fato de a estação ficar em frente à entrada da Usina, assim como a Fábrica Carmen em Fernão Velho, do outro lado da rua.

“A Usina Leão tem um forte componente econômico porque neste trajeto, naturalmente, o trem urbano, de carga ou passageiro, sempre serviu para escoar a produção de álcool e açúcar”, explica o economista Cícero Péricles.

A Usina Utinga Leão, com a Brasileiro e Serra Grande, iniciou o ciclo usineiro em Alagoas quando da decadência dos engenhos banguês, que ainda eram escravistas em seu modelo de produção.

Esse perfil mais industrial para o setor da cana exigia nova maneira de escoar produtos e foi a linha férrea possibilitou os caminhos desse novo tempo.

Mas se a Utinga já foi destaque do setor, hoje ela enfrenta aparentes dificuldades até mesmo para pagar funcionários. No último dia 23 de fevereiro, um grupo de trabalhadores bloqueou a linha férrea em protesto por falta de pagamento.

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Estação da Utinga em 2008, ainda em sua estrutura anterior à recente reforma feita pela CBTU (Foto: Renan Souza/TGVBR)

De acordo com os manifestantes, eles foram contratados para trabalhar entre o final de novembro e início de fevereiro, mas a Usina Utinga Leão ficou um mês e meio sem pagá-los e sem dar baixa em suas carteiras de trabalho. Nenhum representante da empresa falou com a imprensa sobre o assunto.

Na quinta-feira (1º), o Ministério Público do Trabalho intermediou acordo entre Usina e trabalhadores no qual a empresa se comprometeu a quitar o débito até o final de março.

A reportagem da Tribuna Independente não obteve permissão para chegar, de carro, até a estação da Utinga. Segundo funcionários da Usina, a passagem só seria possível com permissão prévia dos diretores da empresa.

Gustavo Paiva, comendador dos operários

 

Gustavo Guedes de Paiva foi um paraibano que se instalou em Rio Largo. Nascido em 1892, ele foi convidado pelo sogro para assumir o comando da Fábrica Progresso, um dos núcleos da Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos.

A estação ferroviária que leva seu nome homenageia aquele que, para boa parte da população de Rio Largo, é considerado um empreendedor nos moldes de Delmiro Gouveia, dada sua visão social e de como alavancou e transformou a cidade em polo operário de destaque no estado entre os anos 1930 e 1960. Gustavo Paiva recebeu o título de comendador dos operários rio-larguenses.

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Antônio Felipe se lembra da pujança das fábricas rio-larguenses cuja produção era escoada pelo trem (Foto: Sandro Lima)

Com a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, Gustavo Paiva foi chamado para participar do Conselho Consultivo do Estado de Alagoas, que era nomeado pela pasta da Justiça do governo provisório, e chegou a ser composto por nomes como Cônego Luiz Barbosa, Manoel Brandão, Ângelo Martins, Crisanto do Nascimento de Carvalho e Manoel Dubeaux Leão.

O perfil de tentar melhorar a vida dos operários rendeu a Gustavo Paiva algumas intrigas, entre eles ser chamado de comunista – quase uma ofensa à época. Daí os trabalhadores o chamarem de comendador.

“Em Rio Largo tinham linhas e ramais que serviam para transportar a carga e descarga do tecido produzido nas fábricas do Comendador Gustavo Paiva que iria ser transportado para a venda”, conta seu Antônio Felipe, ex-funcionário da antiga Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN).

RIO LARGO

A suntuosidade de prédios centenários, ainda que em ruínas, revelam: a cidade respira História. Na paisagem podem ser vistas ainda, estas sim renovadas pela bondade da Mãe Natureza, as águas caudalosas da velha barragem da Fábrica Cachoeira, do município de Rio Largo, a 27 km de Maceió, que, outrora, serviu como fonte para gerar energia para a antiga fábrica de tecelagem da cidade.

Para completar o cenário, não mais com o velho apito do trem, mas agora um som de modernidade, é o VLT quem circula na via férrea que contorna a cidade outrora sede da Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos que empregava nos tempos áureos quase quatro mil operários de todas as partes — de Maceió, Rio Largo e municípios circunvizinhos, todos guiados pelo trem, à época.

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Avenida Getúlio Vargas, em Rio Largo, em 1956; estação fica ao fundo, no canto superior direito (Foto: Acervo/Edberto Ticianeli)

Mas quis o destino que a indústria têxtil entrasse em decadência com a consequente extinção do setor em Alagoas e o fechamento das fábricas Cachoeira e Progresso.

“Eu achava lindo aqueles trabalhadores, aquele povo todo, fardadinho, largando das fábricas de tecelagens no finalzinho da tarde. Era muito bonito”, lembra nostálgico, Antônio Felipe, ao revelar que aportou na cidade em 1964. “Eu era só um rapazinho”.  Hoje ele tem 63 anos de idade dos quais 25 dedicados à CFN.

Antônio lembra com nostalgia aqueles tempos de industrialização. Segundo ele, eram milhares de trabalhadores nas linhas de produção das fábricas de tecelagem de Rio Largo, mas muitos deles eram moradores de cidades vizinhas ou de bairros adjacentes de Maceió, por onde circulava o velho trem. Num comparativo, era como se fosse o Rio São Francisco, o Rio da Integração Nacional, que corta estados desde Minas Gerais, a nascente, até a foz, em Alagoas.

“O trem trazia gente de toda parte de Maceió e de alguns municípios para trabalhar nas fábricas daqui”, atesta Antônio.

A última parada

 

O bairro de Lourenço de Albuquerque, em Rio Largo, foi um dos locais mais atingidos pela enxurrada de 2010. É lá onde se daria o início da Transnordestina, que as imagens ainda impressionam. É também o fim de linha da viajem do VLT que saiu de Maceió.

Mas apesar da enxurrada que devastou os trilhos destinados à Transnordestina, o viajante pode conferir um pouco da poesia presente no balanço do moderno VLT. Uma das coisas pitorescas do lugar é o prédio que servia de base de apoio aos trabalhadores contratados pela antiga CFN e atual empresa Ferrovia Transnordestina Logística (FTL), agora ocupado como sede de um time de futebol.

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Lourenço de Albuquerque é o final da linha que é testemunha de parte da História alagoana (Foto: Sandro Lima)

“É o ‘Falta de Ar Futebol Clube’, que se reúne nos fins de semana para bater uma bolinha. Virou vestiário onde os jogadores guardam seus pertences”, revela um dos ajudantes de seu Antônio, o jovem Leonardo Luís.

E foi no vaivém diuturno do VLT entre Maceió e Lourenço, que a Tribuna Independente se deparou com Matheus Augusto dos Santos, 12 anos. Acompanhado da mãe e da tia, Matheus, que cursa o 7º ano do Ensino Fundamental, se delicia todo dia ao se dirigir de trem para a escola que fica em Satuba.

“Eu gosto muito de viajar nesse trem”, diz o tímido estudante. “Ele parece que se transporta para outro mundo quando entra nesse trem”, emenda sua mãe, Joana Félix dos Santos. “Mas ainda bem que na escola ele não viaja na ‘maionese’, sempre tira notas boas”, completa a mãe de Matheus.

A estação de Lourenço de Albuquerque deixa o gosto de quero mais, seja pelo passeio em si, seja pela vontade de conhecer mais a História de Alagoas.

 

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Mapa da linha férrea entre Jaraguá e Lourenço de Albuquerque (Fonte: CBTU)

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José Manoel Ferreira Gonçalves é graduado em: Engenharia Civil, Jornalismo e Direito. Além das graduações tem cinco especializações (latu sensu): Termofluidomecânica, Geoprocessamento, Engenharia Oceânica História da arte Ciências Políticas Fez ainda Mestrado e Doutorado (stricto sensu): Mestrado – Engenharia Mecânica, Doutorado – Engenharia de Produção e Pós-doutorado na área de logística. José Manoel atuou em áreas diversas, como engenharia civil, tendo sido diretor do SECOVI, jornalismo (com destaque para a rádio Jovem Pan), professor universitário e diretor de campi.

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José Manoel Ferreira Gonçalves é um dos maiores especialistas do Brasil no tema ferrovias, seja no transporte de cargas, seja no transporte de pessoas inter e intramunicipal.

 

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